segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vapor barato.



       É que eu só acho injusto, sabe Zé, isso de tudo ao meu redor seguir seu prumo e eu ficar assim, sem rumo, que nem cego em tiroteio. Cansei dessa deficiência visual, auditiva, sentimental. Será que não tem como amenizar o quadro clínico?! Reverter o efeito drástico do trauma?! Porque me cansam as noites de insônia e desilusão barata. Queria ao menos recuperar meu justo e pouco sono, será que é pedir demais?! Nem minhas horas de sossego, Zé, por Deus, aquela meia dúzia de minutinhos em que me permito abandonar a personagem, são dignas de acalmar meus sentidos. Tudo bem, há dias em que a gente vê mais do que consegue aguentar, a gente pena e até aceita que nunca vai passar, mas convenhamos, dá pra ser bem menos, dá pra não incomodar. Porque outra rodada de músicas volúveis e garrafas vazias não combina comigo, Zé, lembra, lembra bem da amiga que eu era pra você. Que eu era pra mim mesma, Zé, lembra o orgulho e amor vigário que eu tinha por mim mesma. Vê se dá pra encontrar a excludente de ilicitude dos crimes que cometi, porque me fiz prisioneira de uma realidade que não é minha. Chega de mentiras, Zé, de ilusão e amor barato às escondidas. Cadê minha mania frouxa de escancarar as coisas, de gritar aos quatro ventos?! Eu não me entrego a nada, nem me apego, ando num fastio total de vida e morte. Até pra morrer, Zé, eu tenho preguiça. Medo não, medo eu tenho é de viver, dia após dia, tendo que esconder minhas falsas expectativas e tristezas. Todo mundo me diz que sou tão moça pra tanta tristeza, qualquer um me diz pra cuidar de minha vida, mas como, Zé?! Como a gente põe ordem naquilo que não tem mais jeito?! Que nunca teve, pra ser mais franca. Sempre corri atrás de um motivo furto e uma razão sensata pra viver. Sempre tive pressa. E hoje vejo que tudo aquilo que eu mais quis na vida, já ficou pra trás.