É que eu só acho injusto, sabe
Zé, isso de tudo ao meu redor seguir seu prumo e eu ficar assim, sem rumo, que
nem cego em tiroteio. Cansei dessa deficiência visual, auditiva, sentimental.
Será que não tem como amenizar o quadro clínico?! Reverter o efeito drástico do
trauma?! Porque me cansam as noites de insônia e desilusão barata. Queria ao
menos recuperar meu justo e pouco sono, será que é pedir demais?! Nem minhas
horas de sossego, Zé, por Deus, aquela meia dúzia de minutinhos em que me
permito abandonar a personagem, são dignas de acalmar meus sentidos. Tudo bem,
há dias em que a gente vê mais do que consegue aguentar, a gente pena e até
aceita que nunca vai passar, mas convenhamos, dá pra ser bem menos, dá pra não
incomodar. Porque outra rodada de músicas volúveis e garrafas vazias não
combina comigo, Zé, lembra, lembra bem da amiga que eu era pra você. Que eu era
pra mim mesma, Zé, lembra o orgulho e amor vigário que eu tinha por mim mesma.
Vê se dá pra encontrar a excludente de ilicitude dos crimes que cometi, porque
me fiz prisioneira de uma realidade que não é minha. Chega de mentiras, Zé, de
ilusão e amor barato às escondidas. Cadê minha mania frouxa de escancarar as
coisas, de gritar aos quatro ventos?! Eu não me entrego a nada, nem me apego,
ando num fastio total de vida e morte. Até pra morrer, Zé, eu tenho preguiça.
Medo não, medo eu tenho é de viver, dia após dia, tendo que esconder minhas
falsas expectativas e tristezas. Todo mundo me diz que sou tão moça pra tanta
tristeza, qualquer um me diz pra cuidar de minha vida, mas como, Zé?! Como a
gente põe ordem naquilo que não tem mais jeito?! Que nunca teve, pra ser mais
franca. Sempre corri atrás de um motivo furto e uma razão sensata pra viver.
Sempre tive pressa. E hoje vejo que tudo aquilo que eu mais quis na vida, já
ficou pra trás.
