Quando
você voltou, estava inebriada pela falta de você em mim e de mim mesma. Tinha
guardado as últimas histórias e cartas no fundo da gaveta. Nem sabia dizer onde
estavam minhas últimas lembranças, suas canções tão viscerais e calmantes,
minha falta necessária do seu sorriso de canto de boca e olhar furtivo. Eu só
repetia, meio que em oração, que tudo tinha acabado, tinha passado, morrido e
devia ser enterrado. As flores sepultadas no quintal, sua risada irônica e
sugestiva não ecoava mais no corredor da sala, nem sua mania estranha de me
observar enquanto eu dormia. Tudo se dissipara com a frequência dos dias e a
passagem dos anos. Esqueci seu rosto amassado e fala mansa ao acordar, o jeito
esquisito de café sem açúcar, seu caderno de músicas e as palhetas escondidas
em meio aos meus livros. Como se fizesse questão de estar presente mesmo indo
embora. Você tratou de ficar em cada canto de mim e da casa, me acometeu de um
mal terrível, que quase não sara. Mas sarou. Passou, e quando você finalmente
voltou pra mim, não reconheci minha paixão de 16. De alguma forma ou de outra,
você é o conhecido mais estranho que tenho, e que amo. Nossa história ainda é aquela mesma e velha de
sempre, sem enredo novo, sem personagem coadjuvante. Logo eu soube que o amor não acaba, mas a nossa vida mudou. Você fez de um tudo, isso eu sei, e eu custei
muito a mudar. Hoje, mesmo que sem querer, foi bem mais fácil a gente voltar, sem dono e sem saudade, você
veio pra ficar.
