sábado, 29 de setembro de 2012

Jardim de inverno.


    Era uma manhã mais cinzenta do que de costume. Espreguiçou-se demoradamente enquanto furtava da janela o aroma das romãs maduras no quintal. As cortinas semi-cerradas só permitiam a chegada de vagos feixes de luz, enquanto a aurora matinal se desfazia no tempo. Preparava o café em meio ao cantorio desajeitado de um blues que soava da sala. Há anos não ouvia aquela canção. Rodopiou de um lado a outro da cozinha, embalada pela saudade que a melodia dedilhada lhe trazia. Já não era mais a mesma. Tinha sido tanta coisa desde então, menos a garotinha de olhos de jabuticaba furtiva e lábios púrpura vivo. Não via mais o trem das seis, nem o sorveteiro e sua dose extra de calda de caramelo. Há tempos que o vento levara suas bonecas e guloseimas da tia solteira. Era sozinha agora. Ela e seu passado encaixotado em baú. Não mudara tanto, mas também não guardava nenhum resquício de bondade e inocência de seus anos dourados. Hoje deseja copiosamente  uma solução atroz e ligeira que consuma seus dias. Sua vida, por inteiro. Descobrira tarde demais que a vida lhe traíra em jogo, e tenta desde então conviver com a derrota. Perdida de si e dos dias. Outra vez a canção do rei naquela voz míngua e incomum que ela nunca descobrira de quem era. Talvez, também assim ela fosse: míngua e incomum, alguém que descobrira tarde demais o que era pra ser.