Era
uma manhã mais cinzenta do que de costume. Espreguiçou-se demoradamente
enquanto furtava da janela o aroma das romãs maduras no quintal. As cortinas
semi-cerradas só permitiam a chegada de vagos feixes de luz, enquanto a aurora
matinal se desfazia no tempo. Preparava o café em meio ao cantorio desajeitado
de um blues que soava da sala. Há anos não ouvia aquela canção. Rodopiou de um
lado a outro da cozinha, embalada pela saudade que a melodia dedilhada lhe
trazia. Já não era mais a mesma. Tinha sido tanta coisa desde então, menos a
garotinha de olhos de jabuticaba furtiva e lábios púrpura vivo. Não via mais o
trem das seis, nem o sorveteiro e sua dose extra de calda de caramelo. Há
tempos que o vento levara suas bonecas e guloseimas da tia solteira. Era
sozinha agora. Ela e seu passado encaixotado em baú. Não mudara tanto, mas
também não guardava nenhum resquício de bondade e inocência de seus anos
dourados. Hoje deseja copiosamente uma
solução atroz e ligeira que consuma seus dias. Sua vida, por inteiro.
Descobrira tarde demais que a vida lhe traíra em jogo, e tenta desde então
conviver com a derrota. Perdida de si e dos dias. Outra vez a canção do rei
naquela voz míngua e incomum que ela nunca descobrira de quem era. Talvez,
também assim ela fosse: míngua e incomum, alguém que descobrira tarde demais o
que era pra ser.
