Foi o primeiro a apontar de forma assustadora a risca britânica
no meu jeito fático de ser. E foi assim que definhei minhas manias amoldadas e
amaciei minha indecência. Não bastou, ou melhor, não coube na rotina
tragicamente estipulada pela malcriação sufocada nos meus anos. As pessoas não
entendem meu pouco caso e mania de romper abruptamente. Mas o fato é que, a
vida, nós vivemos em fases. Você não terá sempre os mesmos amigos e gostos.
Somos pseudônimos ao longo do caminho. De hippie arcadista a jurista conservadora,
fui o que o acaso me apresentou no desenrolar da trama. Nenhuma jura feita
entre garrafas e copos vazios faria sentido na manhã seguinte. O nível etílico
da coisa e os efeitos colaterais da ressaca só nos provam o quanto é passageiro
isso que temos de construir laços. Eles fatalmente se desatarão. Não há amor
que dure depois de uma dor de cabeça ressentida e ressacada. Passado a gente
não esquece, a gente enterra. Enterra pra, num dia qualquer, tropeçar em algo
no jardim. Virar a esquina e esbarrar com o primeiro ano do Ensino Médio, da
faculdade, ou do que quer que seja. A gente não esquece, porque não acaba, mas
termina como tinha que ser. Como capítulo mal elaborado de novela das seis. A
gente sempre espera que o próximo compense, mas a verdade é que só vemos beleza
quando esta já não faz parte do dia a dia. Acabamos adiando, adiamos e nunca
cumprimos. Comprimimos o enredo. Burlamos compromissos, desviamos das culpas e
das desculpas também. Encerramos ciclos pra não sermos exterminados por eles.
Não sobra nem raiva, acho que o que fica realmente é arrependimento e amor. Nós
somos apaixonados pelo que fomos um dia, porque hoje não somos mais, e não mais
seremos. E a gente vive se preparando, tentando adivinhar o desfecho da
história. Mal percebemos que, no fim das contas, não saímos nem do rascunho do
que pretendíamos ser.

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