Então vida, ainda que você
maltrate e faça pouco caso, ainda que menospreze meus dias e minhas inúteis
expectativas de ter o que quero, ainda assim, vou deixar sentir cada gota dessa
incompreensão mal resolvida, cada canto, cada milímetro de sentimento alado que
me povoa e apavora. Vou chorar cada
lágrima ressentida e deixar ser toda desilusão na madrugada. Lembrar cada fato
estrategicamente guardado, em sonho, em caso, e ser saudade até não caber mais
em mim, até conseguir alcançar o outro lado. Vou trair cada vã promessa que me
fizer, e degustar toda maldade que eu posso ser. Vou me arrepender amargamente
do que não fiz, e lamentar ainda mais pelo que foi feito. Vou estar perto
quando ficarmos longe, e mais perto ainda quando estivermos perto. Vou aceitar,
mas vou me culpar também, quem sabe até matar um pouco mais de mim outra vez. E
vou me perdoar por cada erro grosseiro. Por cada tentativa furta de entender a
vida, e de tentar ser feliz. Porque você me roubou muitas horas e anos com
ocupações vazias. E eu descobri, aliás, sempre soube. Mais vale sentir demais
do que não sentir nada.

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