É isso mesmo que a vida faz com
aquilo que não tem mais jeito. Ir em frente ou nada. Nadamos em mares desconhecidos
até reconhecermos erros e segredos escondidos. Cá entre nós, reviver memórias
às vezes nos revelam mais do que era preciso. Então, estamos sempre cheios de
coisas para serem ditas e, por serem assim difíceis, ficam caladas,
contentam-se com a insatisfação de um deslize ou desatenção. A vida desatenta
muito de cada um nós. Porque o peso da palavra dita nem sempre é o mesmo
daquela ouvida, ocorrem erros no sistema, ocorrem quebras na rotina. Ou mais,
correm os anos, os dias desaguam sem muito contexto, e só nos restam poucos
pretextos pra sustentar a situação. Até que a corda rompe outra vez e sentimos
na pele o que afastamos do coração. Porque enfeitamos saudades, nós disfarçamos
comoção. Vestimos luto tantas vezes na vida e nunca chegamos a acostumar isso,
sempre parece que dói mais do que da última vez. Demora muito, custa demais pra
ser tão pouco. Dizemos que perdemos o rumo, o norte, o sentido. Até cansarmos a
dor. Até estancarmos o sangue quente e a dor latente. Até sermos cicatriz de
novo. Até enxergarmos o leste, o oeste ou o sul, até esquecermos ou
forçarmo-nos a esquecer da rota que estava errada e convencermos o peito fraco
e descompassado de que agora não tem mais jeito. É rumo novo, vento cruzado. É
recobrar o fôlego e sorrir por sobre o ombro. Achar outro guia e amanhecer com
o dia, sem muita espera. Fechar ciclos, expandir ideias e perceber que a vida exige mais que uma simples trama de novela.

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