A gente tem todo o direito de
deixar a vida correr, como barco levado pela correnteza. Não é preciso remo,
força motor ou qualquer impulso. Ainda que não seja do nosso feitio, a vida
anda, os dias se sucedem numa cadeia ensaiada. Ficamos pra trás e somos
arremessados rumo àquele desconhecido e expectado. E sim, em cada nova esquina
somos surpreendidos de presente, passado e futuro, tudo desapercebido. Porque
saudade pode ser alegre vez em quando, assim como algumas faltas, ausências,
incompletos de um inteiro sonhado. Somos uma rotina de dores e amores que
partem e voltam. Já cansei de ver os meus arrumarem as malas e baterem a porta.
Amanhã voltam como se nada tivesse acontecido, incontáveis vezes isso me ocorreu.
E francamente, ainda que mudem as saudades, os dias, os anos, ainda assim vai
estar vazio, ainda fará falta, como faz agora, como fez antes. Ainda estaremos
nos extinguindo do mundo, da vida das pessoas, da nossa própria existência. Estamos
continuamente acabando, em cada riso, em cada lágrima, como conta gotas de fim
estimado. Estamos findando sem nos darmos conta de que já fomos plenos, talvez
um dia, talvez uma hora, talvez agora, ou nunca mais.

Nenhum comentário:
Postar um comentário