Às vezes as coisas me incomodam e
tento encontrar uma comparação, ou melhor, uma distração para elas. São como
pedras no sapato. Nós não temos o
costume de vasculha-los, calçamos de forma metódica e natural, e, passo a
passo, damo-nos conta de algo incomodando do lado esquerdo. Tentamos não dar
atenção à primeira vista, mas a danada cisma de arranhar no canto, comer pelas
beiradas, até parece uma criança carente clamando por atenção: olha eu aqui!! E
a gente vai adiando, vai suportando, vai aguentando como pode pra se poupar do
trabalho de retirá-los e sacudi-los. Até
não aguentarmos mais. Até termos que decidir entre o incômodo da parada e o
conforto da caminhada. Demoramo-nos, até o sangue ferver, a cabeça doer, e a
paciência acabar. Descalçamos os pés. Essa atividade que nos parecia tão árdua
traz um alívio indescritível, parece elevar a alma. Sacudimos o par, uma, duas,
três vezes, verificamos mais uma para nos certificar de que agora sim podemos
continuar o percurso. Calçamos. Acomodamos o pé, o espírito e o pensamento. O
calo ainda lateja, volta e meia a dor trata de aparecer, vem com uma frequência
difícil de descrever, mas, não sei se pelo costume ou força de vontade, a gente
vai se habituando, vai domando essa coisa de doer. Até criar aquele “jeitinho”
que é só nosso no sapato. Até não apertar mais. Parece impossível, mas a vida é
assim mesmo. Aperta de um lado, arranha, machuca. Corrói nosso juízo, até
pararmos e darmos uma sacudida. Até moldarmos a dor, acomodando num cantinho e acostumando-se
ao desconforto. Dando tempo ao tempo, sem pressa e ressentimento, até parar de
incomodar, mais dia, menos dia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário