quarta-feira, 16 de maio de 2012

Pés descalços.





      Às vezes as coisas me incomodam e tento encontrar uma comparação, ou melhor, uma distração para elas. São como pedras no sapato.  Nós não temos o costume de vasculha-los, calçamos de forma metódica e natural, e, passo a passo, damo-nos conta de algo incomodando do lado esquerdo. Tentamos não dar atenção à primeira vista, mas a danada cisma de arranhar no canto, comer pelas beiradas, até parece uma criança carente clamando por atenção: olha eu aqui!! E a gente vai adiando, vai suportando, vai aguentando como pode pra se poupar do trabalho de retirá-los e sacudi-los.  Até não aguentarmos mais. Até termos que decidir entre o incômodo da parada e o conforto da caminhada. Demoramo-nos, até o sangue ferver, a cabeça doer, e a paciência acabar. Descalçamos os pés. Essa atividade que nos parecia tão árdua traz um alívio indescritível, parece elevar a alma. Sacudimos o par, uma, duas, três vezes, verificamos mais uma para nos certificar de que agora sim podemos continuar o percurso. Calçamos. Acomodamos o pé, o espírito e o pensamento. O calo ainda lateja, volta e meia a dor trata de aparecer, vem com uma frequência difícil de descrever, mas, não sei se pelo costume ou força de vontade, a gente vai se habituando, vai domando essa coisa de doer. Até criar aquele “jeitinho” que é só nosso no sapato. Até não apertar mais. Parece impossível, mas a vida é assim mesmo. Aperta de um lado, arranha, machuca. Corrói nosso juízo, até pararmos e darmos uma sacudida. Até moldarmos a dor, acomodando num cantinho e acostumando-se ao desconforto. Dando tempo ao tempo, sem pressa e ressentimento, até parar de incomodar, mais dia, menos dia. 

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