Sabe Zé, hoje eu acordei com aquele humor arisco que você tanto teme. Mas, calma, Zé, não vou descontar em você a raiva de outrem. Cansei também de tentar descontar as coisas, sou indiferente agora. De que adianta, Zé, me diz?! De que adianta fazer tempestade, chorar sobre o leite derramado, berrar, espernear e tudo mais?!?! As pessoas veem o que querem, e dizem o que não querem ouvir. Elas fazem de nós o quintal de suas casas, Zé. Acham que podem entrar sem permissão e sair quando bem entenderem. E se você fica aí calado, eles perturbam mesmo, pouco importando os gritos e reclamações dos vizinhos. Deixei badernarem demais em mim, Zé, vê só a bagunça. Parece de cabeça pra baixo e ao avesso. Tem concerto, Zé?! Será mesmo que tem jeito?! Oswaldo me disse que, longe de ser palpável, a nossa liberdade era a primeira das coisas que floresciam. Cadê a minha, Zé, heim?! Esqueceram de regar, ou foi o solo infértil?! Zé, aqui parece sempre outono, vê essas folhas?! Todas elas caídas no chão, amarelas. Eu quero flores, qualquer delas, não quero mais ser propriedade privada de ninguém. Quem me ajuda, Zé, quem?! Eu quero reforma agrária. Patrimônio tombado, eu quero qualquer outra coisa, Zé, só não me deixa mais ser cadeia de mim mesma.

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