Seguindo a lei natural das coisas, ou não, vim ao mundo, sem nem mesmo querer, recusando ainda no ventre a oferta mesquinha de viver, retardando minha vinda à Terra o máximo que pude. Não teve outro jeito, segue-se o rumo, e cá estou eu, vinte e poucos anos depois, querendo não estar, quem sabe adiantar o filme pra chegar àquela parte interessante, em que os olhos ficam vidrados e não se escuta outra coisa a não ser o ritmo frenético de respirações desreguladas, porque não se quer perder um só detalhe. Eu já perdi demais. Talvez, na vida, tenha sido o que mais fiz. Perdi sonhos e vontades por conta de verdades que me foram apresentadas, e me acordaram de ideias vagas que só preenchiam a mim mesma. Perdi pessoas que julguei amigas pelo simples fato de nossas naturezas não se equilibrarem. Perdi razões, motivos, perdi certezas que alimentei durante anos, pelo simples fato de abrir os olhos e encarar a realidade que é ‘crescer’. E o mais difícil disso tudo, de fato, não foi a perda. Foi encarar o traje de perdedor. E, assim sendo, decidi que não mais assumirei outro papel além deste que me foi apresentado. Não serei a amiga de recado, nem agenda semanal, nem companhia de última hora, ou passatempo de verão. Também não tentarei inutilmente variar minha índole ríspida e acre, regada a mel e a fel; não se muda natureza quando alguém te faz mal. Tomam-se precauções. E eu devia mesmo ter fechado minha boca quando era tempo, porque as coisas só pioraram com as palavras tropeçadas, no fim das contas, tudo pareceu tão estúpido. E, embora eu acredite que fiz o melhor que pude, de boas intenções, o inferno está cheio. Sei que só estou desperdiçando tempo quando penso sobre tudo isso, mas não sou tão sólida quanto pareço, às vezes, me canso com coisas constantes. Tenho limites curtos pra certos casos. Não sou tão paciente quanto deveria, nem apropriada com as pessoas ao meu redor, também não aguento muita fragilidade diante da arrogância mundana. E como é difícil me mostrar, suporto meu mundo e desmorono em mim mesma, procurando motivos complacentes e plausíveis pra minha tristeza sem fim. Tá aí a única certeza que sempre tive: que eu sempre estive errada, e no fim das contas, sempre quis concertar o que já veio com defeito de fábrica.

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