Engraçado você dizer que sente falta de algo que nunca teve. Ainda que eu gaste o tempo e os dias pra por em ordem a casa e a vida, sempre fica alguma coisa com o que se desgostar. É uma lembrança despercebida, uma pessoa na esquina, um nome, cor, cheiro, ou sabor. Fica essa saudade vazia, tão necessitada de presença, que se mostra compulsiva e, ao mesmo tempo, torturante. Ao contrário do que fiz nas outras vezes, não fugi. Resolvi ficar e receber numa pancada só isso que chamam de trauma. Dor inteira pode ser mais doída, mas prestações em carnê carregam juros, e não andava a fim de desembolsar mais do que os gastos e desgastes exigidos pela situação. Mas cá estou, do outro lado do oceano, nutrindo a minha única certeza de que a ressaca marítima logo cessa, os efeitos climáticos se amenizam, e eu poderei em fim navegar tranquila e segura. Enviei sinais esperando inutilmente correspondência. Agitei furtivamente as mãos a fim de ser avistada, encontrada, percebida. Mas a gente só percebe o que quer, não é verdade?! Fiz silêncio, quase ensurdecedor. Alguém foi capaz de intuir?! Não, muitos se encontram fadados a não dar um passo além do seu próprio umbigo. Pra quê olhar para o lado, não é mesmo?! É, estou do lado oposto e sentido contrário a certas pessoas que já me foram paralelo. A vida prega cada peça na gente, e o que sobra disso tudo? Mágoas, traumas, cicatrizes que não se fecham e abrasam a alma. Agora, faço questão de me medicar contra as náuseas e espasmos que volta e meia tenho ao encará-los. “Você não pode dar jeito no mundo! Você não é dona do destino!” repito todo dia pra criança imatura e inquieta, saltitante em meu peito. E cá me abrigo, recostada nas barreiras que construo a fim de cessar saudade e melindre. Tomo outra dose de receio e constato: prefiro a incerteza dos meus antigos amores amassados nas gavetas que a imperfeição traiçoeira de um quase amor démodé.

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