segunda-feira, 26 de março de 2012

Condor.



          Outra vez acordei com a sensação de que os dias se empilhavam sobre mim. Embora eles estejam exatamente iguais, as manhãs sempre têm um gosto de ressaca, ainda que eu não beba, nem mesmo socialmente. De fato, o passar das últimas semanas me fizera acreditar que as tarefas mais prosaicas eu tiraria de letra, mas, ledo engano, bastou o primeiro empecilho pra todo resto desmoronar junto. Meus antidepressivos há muito não surtem efeito, e temo pelo pior. Uma resistência indestrutível à minha própria tristeza, como àquela faringite que me acometeu no passado. Já sofro os sintomas mais agressivos, choro porque estou cansada de tudo e tudo se cansou de mim. Causa-me náuseas encarar as pessoas e todas suas máscaras e sorriso vagos (falsos), tenho vertigem toda vez que a prepotência esquerdista me apunhala pelas costas com uma mensagem vaga e meia dose de cavalheirismo vagabundo, sofro de insônia e peco pelo excesso de cansaço. Prefiro uma morte mais rápida, algo letal e ágil, uma dose categoricamente excessiva pra por fim a toda essa glória dramatúrgica helênica. Me desculpe, ou melhor não, me desate dessa discórdia, porque nada me pareceu valer a pena nessa merda de história. Hoje me vi no auge da loucura e desespero, quase rompi em lágrimas meio a multidão aturdida que fingia me assistir expor civicamente edifícios e edificações, seguros e mandados, como palhaço ao centro do picadeiro. Fora o fim da picada, assim me vi, após retomar o fôlego e disfarçar o tremor fatigado das mãos, ainda me é difícil recobrar a sanidade. Ainda me dói, como todas as outras vezes, e francamente, tenho visto que entre um colapso nervoso e abrir os olhos às 5:50 da manhã todos os dias, a primeira opção tem me parecido de mais fácil execução.  

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