Não há fotos. Aliás, nunca houve. Nem música, nem som, sonho, palavras poucas e sentimentos concretos. Não há mais o ‘nós’, pronome pessoal do caso reto. De reto esse caso nunca teve muita coisa, pra ser mais sincera, sempre me pareceu oblíquo demais, Zé, começou tão torto, lembra?! Tão sem começo, tão sem sentido, ou sentindo cansaço demais. Começo fadado a um fim, por certo. Passou longe de ser só dor, sabe Zé?! Dor de alma, martelando dentro como badalada cega de sino mudo. Às vezes eu desejei ser apenas dor de cabeça numa tarde nublada, cólica roída ou torcicolo de noite mal passada, dor de dente que me obriga a uma visita antecipada. Foi mais, bem mais, embora exigisse tão pouco. Foi tempo corrido, Zé, quase sem fim, parecia que ia me afogar. (...) Aí passou, é Zé, foi conformismo pros meus dias, o vazio, a razão pra ser forte e deixar de besteira. Passou tudo pra eu ver que nada, isso mesmo, nada mudaria o que tinha passado. Passou batido, calado enquanto gritava em minha cabeça. Passou sorrindo, chorando por dentro toda tristeza. Passou, Zé, e com toda certeza passará. Lembra aquela outra vez?! É, volta e meia me palpita no peito e temo voltar ao estágio de calefação dos anos virados. Mas é medo besta, eu sei, Zé, essas coisas só acontecem uma vez, de fato.

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