Olha, tem sido um clima agradável aqui. Desde ontem à tarde. Um vento soprou mais forte do que de costume. Pensando bem, não só soprou. Ele revirou tudo. Levou placas, sacudiu as árvores, arrancou telhas, quase me sufocou com a poeira. Acabou com a fiação. Faltou energia. Foi assim, rápido e calculado. E, ao mesmo tempo, parecia que não ia ter fim. Sabe aquele medo instantâneo que sentimos quando as coisas perdem sua ordem natural? Ou quando algo precioso é ameaçado de nos ser tirado? Então, quase isso ou um pouco mais. Mas, como diria o poeta, depois da tempestade vem a bonança. A chuva caiu fininha. Tímida e envergonhada. Tanto espetáculo pra nem sequer criar uma pocinha d’agua. Foi bem assim mesmo. Choveu corrido, como sentimento desprezado dentro da gente. Para e depois volta a agonizar. E assim correu a noite a finco. Parecia que alguém lá em cima estava muito magoado. Tentaram lhe consolar tantas vezes. E ele até se acalmava. Mas por pouco tempo, e então voltava com soluços e trovões, bradando aquilo que o sufocava. Foi assim a noite toda. E eu fiquei cá da minha janela, assistindo as coisas acontecerem. E me pareceu tão impossível e ao mesmo tempo tão certo quanto a minha vida. O vento, a bagunça, a tempestade e a bonança. O choro estancado e corrido dos últimos tempos.
Amanheci como o dia. Nublado e tranquilo. Vez ou outra a brisa se altera, tentando chamar a atenção. Assim também fazem meus pensamentos. O sol, também, resolveu aparecer agora a pouco. Não gosto dele. Não é que não goste mesmo, é só incômodo com sua altivez diante das pessoas. Mania burra de se intrometer em toda e qualquer brecha que encontra. Espero que não atrapalhe o dia aconchegante, nem tome conta de minha vida assim. Não ando aberta à visitação. Ando como chuva, serena e tranquila, sem preocupação com o que vai levar...folha, terra, passado, levo tudo, sem me preocupar com nada. Quando der, eu deságuo, onde der, eu largo o que não cabe na bagagem.

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