
Eu costumo guardar em caixas todas as minhas considerações e desamores. Todos os meus pedaços perdidos com o passar dos anos. Em dias como este, eu costumo resgatar memórias nas coisas empacotadas e descubro que, do passado mesmo, a gente não consegue se livrar. Porque certas coisas acontecem e são feitas para serem eternas. Não importa o quanto façamos para apaga-las. De alguma forma, em algum momento, elas são recordadas. Ou acordadas dentro da gente. Perdas e arrependimentos são efeitos de nossa mania boba de não aceitar os fatos, de desejar mudar aquilo que não poderia ser de outra forma. Mas a gente sabe, e o pior é isso, a gente sabe que só o tempo nos leva a não se importar tanto. Permite que o desapego aconteça, que você consiga diminuir a dor e seguir em frente, quem sabe até com um sorriso no rosto para aqueles que te fizeram sofrer. Assim as feridas cicatrizam, a raiva diminui, e as lembranças são depositadas nas gavetas do armário, esquecidas, recostadas. Eu sei, admito que não é mesmo tão fácil quanto parece, que machuca por muito tempo e quanto mais nos empenhamos para nos livrar, mais elas cismam em ficar. Que muitas vezes a causa de nossas insônias têm RG e endereço. Que é incômodo trocar um sorriso singelo depois da tempestade. E muitas vezes gostaríamos de desaparecer só para não sentir mais tudo isso. Aí eu me lembro que as coisas sempre acontecem, de uma forma ou de outra, porque as situações se repetem. E cada um carrega uma vida inteira na alma, sem que os outros suspeitem de traumas, sonhos e confusões. Então não há um alguém para culpar. Eu tento ouvir a razão repetir que tudo tem seu tempo certo, e as coisas são certas do jeito que são. Embora pareçam tão tortas e erradas.O segredo é manter o equilíbrio. Não dar brecha para o desespero. Lembrar sempre que você é aquilo que sente, por isso deve pensar bem. Não desconte seus dessabores sem um motivo apropriado. Saiba esperar, mas com a certeza de que algumas esperas valem a pena, outras não. Cabe a cada um julgar os motivos de uma espera. Preocupe-se com os outros, mas preocupe-se também com o reflexo deles na sua vida. Na sua forma de levar a vida. Nunca deixe que alguém consuma mais do que você pode oferecer a ele. Ou que menospreze aquilo que você sente. Lembre-se que é possível sentir o mesmo por outras pessoas e ser correspondido. Bem acolhido. Não se contente com o mínimo se você sabe que pode mais. E deve ter mais. Porque, acima de tudo, nós queremos excessos para completar os vazios. Dentro de nós e das nossas gavetas. Porque nenhuma lágrima, nenhum riso ou dedicação se resume a tempo perdido. Há motivos maiores que nos movimentam. Nós somos feitos disso. Do que queremos, do que vivemos e do que não conseguimos ter. Pense nisso da próxima vez que apontar falhas em alguém. Cada um tem motivos verdadeiros para ser o que é.
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